O Homem Da Terra


(The Man From Earth, 2007, 87 min)

E se eu dissesse que sou um homem das cavernas que sobreviveu até hoje? E se eu desse testemunhos que contribuam para que minha alegação tenham fundamento? E se um grupo de intelectuais das mais variadas áreas do conhecimento não encontrassem meio de refutar minha afirmação?
Pois esse é o tema de “O Homem da Terra” (The Man From Earth). Um professor, John Oldman, que acaba de se desligar de sua atual escola, é pego de surpresa por uma despedida planejada por amigos em sua própria casa. Enquanto encaixota e guarda seus bens no caminhão, é questionado do porque de sua decisão de sair do quadro de professores e se mudar. Ele é sempre esquivo, apesar de uma ou outra alegação estranha largada do nada. Conforme a noite cai, a conversa se aprofunda, e o papo e a despedida entre bons amigos vai se tornando mais acalorada, e o ex-professor larga mais insinuações estranhas a seu próprio respeito, até que a alegação máxima acontece: “sou um homem das cavernas, e tenho mais de 14.000 anos”. Todos riem, claro, mas ele mantém sua afirmação, e passa a fundamentá-la. Seus amigos entendem se tratar de uma brincadeira, e passam a participar do “joguinho”. John, no entanto, continua sério e encara todas as tentativas de refutação por parte de seus colegas professores (biólogos, antropólogos, historiadores, etc.) com sucesso, e estes vão se irritando com a perspicácia do dito “homem das cavernas”, e com sua própria incapacidade de desmentí-lo.
Todo o filme, bem como no clássico “12 Homens e Uma Sentença”, se passa em um único cenário, a saber a casa de John. A trama é excelente, e o expectador se sente tão frustrado quanto os personagens coajuvantes, ao também não encontrar meios de refutar o professor pré-histórico, dessa forma tendo de aceitar que ele diz a verdade ou simplesmente desacreditá-lo sem argumentos para tal.
Assistam a “O Homem da Terra”. Duvido que se arrependerão, ou que o assistirão apenas uma vez. Melhor ainda: o produtor aprovou o download do filme por qualquer um que assim o deseje fazer, o que me permite dar a vocês os links para download agora mesmo. – (peguei os links do blog http://pistasdocaminho.blogspot.com).

Torrent:

http://www.mnova.eu/details.php?id=737575&ref=

Legenda PT-BR:

http://www.opensubtitles.org/pt/subtitles/3267355/the-man-from-earth-pb

Assistam e voltem aqui para deixarem suas impressões do filme.

Diversão a todos.

Título: O Homem Da Terra

Original: The Man From Earth

País: EUA

Elenco Principal: David Lee Smith, Tony Todd, John Billingsley.

Companhia: Falling Sky Entertainment

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0756683/

Os Imperdoáveis


(Unforgiven, 1992, 131 min)

Olá amigos do Excelente Filmes. Desde bem antes de começar a me interessar por filmes, se fazem filmes sobre os bravos cavaleiros que se aventuravam pelo oeste dos Estados Unidos para domar o território e lá estabelecer uma parte da nação. Tais cavaleiros normalmente tinham que lidar com problemas do local, na grande maioria das vezes índios e quase sempre maus, ou algum vizinho branco. Em geral, os personagens centrais da história sempre eram pessoas boas, mesmo com um passado não tão bom, e essa era a essência dos filmes western ou “faroeste”. O que toda essa pré-definição de western tem a ver com “Os imperdoáveis”? Acredito que nada.

A história se passa no ano de 1880 em uma cidadezinha chamada Big Whiskey, Wyoming. Em uma noite chuvosa, uma prostituta tem seu rosto mutilado por ter rido do pequeno “instrumento” de seu cliente, porém a justiça não é algo presente na cidadezinha. O xerife local, Little Bill (Gene Hackman) faz um acordo com os culpados pelo ato bárbaro e os mesmos são soltos com a condição de entregarem seis pôneis ao dono do prostíbulo em que a jovem prostituta trabalhava. Buscando a justiça merecida, as outras prostitutas resolvem juntar suas economias para servir de recompensa a quem matar os dois homens responsáveis pela barbárie. Com 1000 dólares em jogo ao primeiro matador, não demora a aparecer em Big Whiskey quem se interesse pelo prêmio.

Essa soma acaba chamando a atenção de Schofield Kid (Jaimz Woolvett) que decide ir buscar um fazendeiro criador de porcos, mas que outrora fora um assasino sanguinário e violento “matando qualquer coisa que atravessasse seu caminho. Esse fazendeiro é William Munny (Clint Eastwood), casado e pai de dois filhos que se mostra relutante no começo, pois seu casamento havia lhe curado das maldades do mundo – porém não eliminado a culpa de suas ações. Finalmente convencido, Munny resolve procurar seu amigo Ned Logan (Morgan Freeman) e os três partem em direção a Big Whiskey.

“Os imperdoáveis” difere dos outros westerns americanos, basicamente, pela natureza dos personagens que permeam a história. O “mocinho” possui um passado de crimes terríveis, que apenas a lembrança o faz corroer-se por dentro. As mulheres, aqui representadas pelas prostitutas, não são passivas a tudo que ocorre ao redor delas e isso não quer dizer que são pessoas puras. O xerife em certo momento diz: “não gosto de assassinos nem homens de baixo caráter”, porém ele é o menos qualificado para fazer tal afirmação. Tudo isso ajuda a construir o clima denso que a obra possui.

Desde sempre, os westerns sempre possuiram sua legião de adoradores. No começo, o astro era John Wayne. Nas décadas de 60 e 70, porém, a pessoa associada aos filmes de faroeste era Clint Eastwood, que se inspirou muito em filmes de bang-bang italiano, e o público adorava. Infelizmente, o gênero não sobreviveu à era pós Guerra nas Estrelas, e as pistolas foram trocadas por sabres de luz. Vejo os westerns hoje em dia caminhando de mãos dadas com os musicais: um dia adorados pelo público e crítica, no outro esquecidos e esnobados. Os verdadeiros fãs, porém, jamais os esquecerão.

Título: OS Imperdoáveis
Original: Unforgiven
País: EUA
Elenco Principal: Clint Eastwod, Gene Hackman, Morgan Freeman, Ricahrd Harris e Jaimz Woolvett
Companhia: Malpaso PRoductions
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0105695/

Um Dia de Fúria


(Falling Down, 1993, 113 min)

Saudações seguidores do Excelente Filmes. Seguindo a onda “cinema-em-casa/sessão-da-tarde” do Douglas e apresentar um filme que, sinceramente, achei que já fizesse parte da nossa lista. Venho falar de Um dia de Fúria.

A história toda do filme se passa em apenas um dia… e que dia. Imaginem o trânsito caótico de SP em uma sexta-feira quando tem aquelas chuvas bacanas e tudo pára ou ainda aquelas cenas de engarrafamento na descida pra a praia em um feriado prolongado ou fim de ano. Pois bem, é em um desses engarrafamentos, porém em uma das áreas mais congestionadas de Los Angeles que o executivo William Foster (Michael Douglas) tem uma espécie de colapso nervoso devido ao calor e ao estresse e abandona seu carro na pista mesmo, levando consigo apenas sua maleta e dizendo que está simplesmente “indo para casa”, tentando chegar a tempo para passar o aniversário de sua filha ao lado dela e de sua ex-esposa.

Em uma linha paralela na história, o detetive Prendergast da Polícia de Los Angeles (Robert Duvall), em seu último dia antes da aposentadoria, está a caminho do trabalho quando se depara com o carro abandonado de Foster e ajuda a tirá-lo do caminho, mal sabendo que aquilo seria o começo de uma grande caçada.

Para ajudar a piorar ainda mais a situação, quando Foster tenta ligar para sua ex-esposa mas fica sem moedas e ele vai até uma loja de conveniência de um coreano e até tenta seguir a política de “sem compra, sem troco” ao tentar comprar uma coca-cola. Ao ser informado do preço absurdo ele se irrita mais ainda e começa a esbravejar contra os estrangeiros que se mudam para os EUA e cobram preços absurdos… logo em seguida começa a brigar com o dono da loja e, com um bastão de baseball do coreano, começa a destruir a loja. Eventualmente ele se acalma um pouco e, antes de sair da loja, paga um “preço razoável” pela bebida.

Sua jornada até sua casa é um desabafo cruel, cínico e violento, uma catarse urbana que chega a ser engraçada de tão absurda. A única pessoa que parece compreender isso é o detetive Prendergast, que vê seu último dia em serviço antes de se aposentar virar de pernas para o ar devido à peregrinação cada vez mais perigosa do executivo pelos bairros pobres e ricos da cidade.

Apesar de soar oportunista e forçado em determinadas passagens, Um Dia de Fúria é um exercício interessantíssimo sobre uma realidade que muitas vezes se torna caótica para quem nela se vê irremediavelmente preso. É preciso acompanhar a história para perceber que William Foster não é simplesmente um lunático descontrolado… sua vida familiar é deveras problemática e há, também, a revolta contra um sistema que muitas vezes desfavorece seus cidadãos nativos em prol de outrem. Alguma semelhança com o mundo corporativo, com a realidade dos subúrbios, com as sinucas da vida pelas quais muita gente já teve que passar? Não é à toa que a identificação com o personagem principal é garantida. Mas não se enganem, a esperteza do roteiro está em dar as cartas ao espectador para que ele faça seu próprio julgamento a respeito da legitimidade de sua revolta.

Divirtam-se e vejam como terminará esse dia de fúria.

Título: Um Dia de Fúria
Original: Falling Down
País: EUA
Elenco Principal: Michael Douglas e Robert Duvall
Companhia: Alcor Films
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0106856/

Sete Anos no Tibet


(Seven Years in Tibet, 1997, 136 min)

Olá amigos do Excelente Filmes. Mais um dia, mais um post, mais um filme. Desta vez uma estória um pouco mais comovente e dramática, e com doses menos cavalares de ação.
‘Sete Anos no Tibet’ conta a estória de Heinrich Harrer (Brad Pitt), um alpinista austríaco de personalidade marcantemente arrogante e prepotente, em uma viagem que tinha tudo para ser um desastre completo, mas acaba por mudar sua vida nos mais variados aspectos.
Harrer, um jovem ambicioso e talentoso, é convidado a integrar uma expedição para escalar o monte Nanga Parbat. A expedição, no entanto, é obrigada a retornar devido a fortes tempestades e, ao chegarem à base da montanha, são presos como inimigos de guerra (são alemães e austríacos, e estão em solo britânico em plena 2ª Guerra Mundial).
Depois de inúmeros fracassos, Harrer consegue fugir, e se dirige ao Tibet, lar do ainda jovem Dalai Lama, em quem desperta enorme curiosidade. Começa então uma bela amizade, permeada por outros diversos sentimentos e fatores, e que darão uma beleza especial ao filme.
Sete anos no Tibet é uma excelente pedida para o início do final de semana, embora eu deva alertar que chega uma hora que “dá no saco” o sotaque austríaco do Brad Pitt.
Bom filme a todos, e até mais.

Título: Sete Anos no Tibet
Original: Seven Years in Tibet
País: EUA
Elenco Principal: Brad Pitt, David Thewlis, B.D. Wong, Jamyang Jamtsho Wangchuk.
Companhia: Mandalay Entertainment
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0120102/

Invictus


 


(Invictus, 2009, 133 min) – Por Guto Leite

No limite do jogo sujo 

Já disse por aqui, noutra ocasião, que não pode ser novidade pra ninguém que Clint Eastwood é um dos melhores diretores destas últimas décadas. Invictus, seu novo filme, ainda nas telonas, se não é brilhante como Bird e Os imperdoáveis, depõe muito a favor da habilidade notável do diretor em contar e escolher belíssimas histórias (o que já são dois talentos).
Em linhas gerais, o filme fala de como o presidente sul-africano Nelson Mandela buscou, durante seu mandato (1994-1999), realizar a transição entre o regime de apartheid e um regime mais democrático e conciliatório. Para isso, Eastwood recuou um pouco, no começo do filme, para o momento de soltura de Mandela, em 1990, e centrou sua narrativa na primeira Copa de Mundo de Rugby conquistada pelos sul-africanos, em 1995 (a segunda viria em 2007 sobre os ingleses, só pra saber).
Parece-me que o maior mérito do diretor neste filme (e não sou especialista na sétima arte) está na delicadeza e precisão com que ele constroi e amarra os dilemas de três grandes líderes para manterem coesos seu grupos. Mandela (Morgan Freeman), que como se diz numa das cenas, precisava evitar o medo e a desconfiança dos brancos – africaners ou descendentes dos britânicos – e o desejo de vingança dos negros. François Pienaar (Matt Damon), o capitão do time, que precisava despertar o sentimento patriótico em seus companheiros para que excedessem seus limites e vencessem os jogos. E, por fim, em segundo plano, Tony Kgoroge (Jason Tshabalala), o chefe da segurança, que, além de comandar agentes brancos e negros num mesmo “time”, deveria lidar com seu passado de humilhações e sofrimentos, noutros termos, precisava lidar com sua capacidade de perdão.
Orbitando esse requintado equilíbrio, ainda no jogo limpo, temos uma atuação muito boa de Morgan Freeman (lembrando bastante sua participação em Um sonho de liberdade), sobretudo até a metade do filme, quando interpreta um Mandela mais humano e menos político. Temos ainda cenas belíssimas de tolerância racial e celebração da igualdade, além de uma trilha impecável, que nos faz lembrar da afinidade do diretor com boa música. Em suma, trata-se realmente de um filme emocionante, disposto a comover o espectador.
Bom, diante dessa missão, que acho que foi tomada pelo diretor (de emocionar quem assiste ao filme), qual o limite do jogo sujo? Uma boa história, saber contá-la, cenas bonitas, boas atuações e trilha; acho que até aqui estamos de acordo que é tudo legítimo para fazer as cadeiras de cinema chegarem às lágrimas. Certo? No entanto, penso que alguns artifícios excedem um pouco a conta, forçam a barra para causar emoção. Por exemplo: na cena da vitória final do time, há uma sequência de tempo considerável em câmera lenta em que surgem imagens da população bastante pobre exaltada pelo título conquistado e das personagens envolvidas se emocionando com o feito. É válido este recurso? Até o mais insensível dos seres sente correr dos olhos uma ou outra lágrima. Eu, que não sou lá tão britânico, tive várias vezes de arrumar uma forma de limpar os olhos e seguir vendo o filme. Me emocionei, claro, na hora, mas saí do cinema com a sensação de que Eastwood havia jogado sujo comigo, que tinha me passado pra trás no campo da emoção.
Para aqueles menos turrões, entretanto, tenho certeza de que Invictus é uma ótima forma de dedicar duas horas e pouco de vida. É mais um bom filme de um bom diretor. É mais um bom filme deste ano que vai passar longe das premiações mais glamurosas (salvo Freeman, que ainda pode ganhar o Oscar), graças, infelizmente, a Avatar. Eastwood continua sendo um diretor, junto com os irmãos Cohen, Almodóvar, Woody Allen, Tarantino, Gus Van Sant, Wong Kar-Wai e outros, capazes de me arrancar de casa e me levar ao cinema, por suas formas peculiares e telentosas de contar boas histórias. Aos outros, prefiro esperar alguns meses e assistir no conforto e no espaço da individualidade.
“I am the master of my fate,
I am the captain of my soul” (“Invictus”, Henley)

Título: Invictus
Original: Invictus
País: EUA
Diretor: Clint Eastwood
Elenco Principal: Matt Damon, Morgan Freeman, Tony KgorogePatrick Mofokeng;

Companhia: Warner Bros. Pictures
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1057500/

 

Filadelfia


(Philadelphia, 1993, 125 min)

No Dia Internacional do Combate à AIDS a indicação cinematográfica para uma sessão em casa me parece óbvia: Philadelphia.
Nesse drama da década de 90 Tom Hanks vive o papel de Andrew Beckett, um advogado em ascensão e bajulado pelos chefes, até que descobre-se que ele é portador do vírus HIV, mesmo com seus esforços para manter esse fato sob sigilo. Daí em diante o comportamento de seus colegas de trabalho muda drasticamente, mas ninguém admite saber da notícia. Sob essas circunstâncias e a alegação de seus superiores de que a qualidade de seu trabalho tem deixado a desejar, Andrew é demitido.
Sua missão agora é provar que foi injustamente demitido por conta de sua condição, o que fere os direitos humanos, ao mesmo tempo em que luta contra a doença com todas as suas forças. Ao seu lado estão sempre seu namorado Miguel (Antonio Banderas) e seu advogado de defesa Joe Miller (Denzel Washington). O julgamento do caso de Andrew é extremamente complexo e novo para a época, e é o retrato de então, época em que a sociedade ignorava as peculiaridades da doença e tratavam os infectados como fazia-se aos leprosos da Idade Média. Lembram-se dos famigerados “Grupos de Risco”, denrte outras terminologias absurdas criadas e propagadas por “cientistas” e mídia, causando pânico na sociedade e criando um preconceito difícil de ser superado? Pois bem, estamos no ano de 2009/2010, nossa ciência evoluiu (?!), a doença teve tempo de ser divulgada, debatida e compreendida, bem como os riscos e meios de contaminação. No entanto, e quanto a nós? Aprendemos o que deveríamos saber desde o princípio? Aprendemos a olhar para um portador do HIV sem repúdio ou repulsa? O que você faria agora caso descobrisse que seu parceiro foi infectado por essa doença? Continuaria a jogar futebol com um amigo que sofre dessa condição sem se preocupar em trombar ocasionalmente com ele?
Ainda acho que o câncer é o mal do milênio, mas me quer parecer que poucos sofrem tanta discriminação quanto os portadores da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (do inglês “Acquired Immune Deficiency Syndrome”).
Tenham todos um ótimo dia, e um excelente filme a todos.

 



Título: Philadelphia
Original: Philadelphia
País: EUA
Elenco Principal: Tom Hanks, Antonio Banderas, Denzel Washington.
Companhia: Clinica Estetico
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0107818/

Gran Torino


(Gran Torino, 2008, 116 min)

Um outro laço do western
(Por Guto Leite)

Para a minha cabeça simplista e dicotômica, existem dois tipos de filme. O primeiro é composto por aqueles que pretendem atender ao gosto cinematográfico mais comum – faceta moderna de nossas necessidades épicas – e, talvez principalmente, movimentar a monstruosa indústria do cinema, das bilheterias às produções, passando pela glamourização de atores medíocres. O segundo tipo, ALÉM de também atender à nossa precisão cinematográfica mais chã, busca fazê-lo de maneira um pouco mais requintada, testando (consciente ou intuitivamente) os limites da forma, e com frequência lança para além deles questões sobre nossa narrativa real, vivida, bem menos épica, obviamente, tendo repercussão no plano ético e extra-narrativo das pessoas. Embora ainda ganhe algumas horas assistindo a filmes do primeiro tipo, prefiro dedicar meus incipientes esforços analíticos para comentar estes últimos, aos quais enquadro, para simplificar, no nome genérico de “obra de arte”. Pois bem, Gran Torino (2008), de Clint Eastwood, é uma obra de arte.
A qualquer amante moderato da sétima arte não é permitido mais se surpreender com a maestria do diretor em contar suas histórias. Contra aqueles que ainda o vêem “somente” como um talentoso ator de western, se apresentam títulos como Os imperdoáveis (1992), As pontes de Madison (1995),  Sobre meninos e lobos (2003), Menina de Ouro (2004) e outros – calma, não esqueci de alguns dos mais notáveis, só vou citá-los adiante -, isso sem falar dos mais obscuros, mas muito bem realizados, na minha opinião, Bird (1988) e Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (1997). Se é possível vislumbrar alguma tendência na filmografia do diretor, aproximo o filme de 2008 com outros que parecem trazer perspectivas alternativas ou desesperançosas em relação ao sonho americano. Nesta linha, estariam os filmes Um mundo perfeito (1993), Cartas de Iwo Jima (2006), A conquista da honra (2006), A troca (2008) e finalmente Gran Torino. Todos, de maneira mais ou menos acentuada, e mais intensamente nos últimos anos, parecem dizer “opa! talvez tenha algo errado por aqui”, o que se torna ainda mais emblemático se considerarmos a forma como Eastwood se celebrizou como ator.
Como sou um típico primeiro Kowalski – nome da principal personagem -, é claro que tenho ressalvas pontuais acerca de certas cenas do filme e até mesmo, de maneira mais ampla, à boa parte da atuação de Bee Vang como o menino Thao Vang Lor. Entretanto, é estrondoso o acerto do cineasta nas demais escolhas que teve para narrar a história de um operário da Ford, e também veterano da Guerra da Coreia, que precisa lidar, a partir da morte da esposa, com imigrantes asiáticos, principalmente, que compõem a maior parte de sua vizinhança. Como uma boa surpresa, o filme não se perde no roteiro batido de um turrão que aprende com as belezas da vida e muda sua natureza. Ao contrário, até o último momento, Kowalski se apresenta como aquele veterano um pouco distante das convenções mundanas e que tende a reagir de maneira excessivamente enérgica a conflitos comuns.
Dois trechos do filme – e que não me desculpem aqueles que ainda não o viram – precisam ser comentados a favor do meu argumento e do talento de Eastwood. O primeiro dele é uma fala, talvez a fala clímax do filme, aquela em que desembocam todas as falas precedentes, que Kowalski diz a Thao. Ei-la, puxada razoavelmente da memória: “Você sabe o que é matar um homem? Seria a pior coisa do mundo, se você depois ainda não recebesse uma medalha por assassinar um “china”, que provavelmente estava implorando por sua vida”. Acho que não preciso remeter essa fala à dimensão maior da assimetria de forças entre os estadunidenses e as culturas com as quais guerrearam (pós-Segunda Guerra), como também à prática reiterada da medalha de honra como prêmio individual no coletivo de uma cultura bélica.

O segundo trecho também merece um parágrafo para si. Ao final do filme, enquanto se espera que Kowalski vai fazer como sempre e reagir com armas à violência das gangues contra seus vizinhos, ele comparece à sede do grupo desarmado, os provoca, finge que vai tirar uma arma, retira um isqueiro e é alvejado pelos criminosos, já com dezenas de testemunhas nas janelas próximas, o que leva à prisão do grupo. Seria um apontamento para futuras soluções de paz ou de anti-violência? O surgimento da polícia americana na cena, posteriormente, invalida essa hipótese? E, de forma menos imediata, como entender a única confissão da vida de Kowalski, algumas cenas antes, a um jovem padre, quando ele só confessa pequenas traições e miudezas, sem tocar no assunto da Guerra da Coreia?

Enfim, havendo ou não essas questões maiores envolvidas, Gran Torino é um filme muito comovente! Mesmo com algumas atuações inconstantes, ressalva feita ao próprio Eastwood e a Christopher Carley (como o Padre Janovich), o filme consegue nos remeter a esse momento delicado de contestação da cultura hegemônica em que estamos vivendo, não fortuitamente anteposta, no filme, à cultura asiática, sem abrir mão da história do homem – o filme começa com o enterro da senhora Kowalski e quase termina com o enterro de Kowalski – e de um humor bastante acertado na rabugeira do protagonista e suas tentativas de lidar com uma cultura bastante diferente da sua. Certamente Eastwood tem sido um dos melhores motivos recentes para aqueles que gostam de ganhar seu tempo com esta categoria genérica, o segundo tipo de filme, que este apaixonado aqui costuma chamar de “obra de arte”.

Título: Gran Torino
Original: Gran Torino
País: EUA
Elenco Principal: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang.
Companhia: Matten Productions
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1205489/